A Tinta e o Papel

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O Papel levantou cedo de sua resma, se espreguiçou, viu um pequeno amassadinho no canto inferior de sua folha branca, deu uma esticadinha para desamassar-se e logo tornou-se engomadinho novamente e foi  encontrar com a Tinta, que assim como ele, também acabara de despertar naquela manhã de domingo.
A Tinta, solícita e pronta para mais um dia de escrita, como seu companheiro e amigo,  também procurou exercitar seus minúsculos pigmentos e suas texturas, iniciando uma série de sacudidas, remexidas, mistura-se em si mesma, combina cores, tons, talvez tentando reinventar novas colorações já existentes em sua própria composição.
Na maior parte do tempo os dois andavam juntos. Mas hoje com a invenção da escrita moderna em tela de pixel, sabe-se lá até quando esses dois irão durar.
Após seus costumeiros exercícios matinais, para não saírem de forma e não perderem a pinta, os companheiros se encontram a fim de dar  partida ao que os mantém unidos como unha e carne, dedo e unha, linha e agulha, gato e rato, cão e gato, e, por fim, a sua não menos importante razão de ser papel e tinta; a união de suas funções para dar vazão ao desenho da escrita.
O Papel se aproxima de sua amiga e a beija carinhosamente, sem notar,  seu corpo esbranquiçado, para não dizer pálido, é tingindo por uma manchinha recebida ao beijar a Tinta no rosto. Mas isso em nada afeta sua parceria e nem seu trabalho de dar vida às cores e formas da Tinta.
Os dois começam a compor um documento de extrema importância, para um cliente exigente que não tolera erros de grafia e nem ortografia, é trabalho solicitado para ontem, em caráter de urgência e emergência. A Tinta acelera seus desenhos em forma de cores e símbolos, transformando suas tonalidades em linguagem desenhada entre as fibras de seu companheiro, seus esboços são precisos e nítidos.  O Papel se mostra calmo e aberto para as necessidades de sua parceira. Sempre que acabado um lado, ele mesmo vira-se para ser composto em seu verso e reverso. Nesse ritmo eles dão conta de mais de dez mil caracteres, palavras e signos por dia. Todos os dias.
São ágeis, hábeis e indispensáveis, principalmente um para o outro. Certa vez o Papel  chegou a dizer, referindo-se à Tinta - Eu não existo sem você.
Seguem o dia preenchendo páginas, escrevendo cartas, desenhando endereços, pintando e traçando na medida do dedo sonetos e poesias. A Tinta parece nunca cansar e o Papel sempre prestativo não desacelera o ritmo. Já passa do meio-dia quando eles dão-se conta que é hora de pausar e reabastecer.
O Papel vai até sua resma para se trocar e voltar a ser limpo, suave e branquinho. A Tinta, já falha e fraca, procura o Sr. Tinteiro para reabastecer e continuar sua atividade impressionista de pintar as páginas das folhas que lhe aparecerem em branco. O Sr. Tinteiro avisa a Tinta que está faltando os ingredientes para abastecer sua tinturaria com novos pigmentos e cores para fazer novas formas de tinta.
A Tinta fica extremamente assustada e de mãos atadas sem poder se reabastecer, sem poder prosseguir com seu trabalho junto com seu companheiro pálido. Ela corre até o Papel e conta o que o Sr. Tinteiro lhe disse sobre a falta de tinturas novas. O companheiro se mostra preocupado, pois sem a Tinta ele é apenas mais um papel pálido, reto e celulósico, como os demais papeis do mundo. Servindo para meras assinaturas, carimbos e despachos.
Eles conversam, o Papel tenta acalmar sua amiga, mas ela está irremediavelmente triste e ele também. O Papel e a Tinta, após longa discussão, decidem ir até a cidade mais próxima e procurar por lá uma tinturaria que tenha os ingredientes para recompor os pigmentos faltantes da Tinta.
Vão até a cidade de Tintown, popularmente conhecida por ter as mais finas Papelarias e sofisticadas Tinturarias. Lá é possível encontrar todo tipo de tinta, tonalidade e as mais variadas texturas, além dos mais finos tipos de papeis. Inclusive os de pão e papelão.
Os dois percorrem quase todas as tinturarias, mas dão com a porta na cara, em dia de domingo as lojas funcionam brevemente até o horário do meio-dia e os Tinteiros já deviam estar em casa almoçando com suas famílias.
A Tinta desesperada, senta numa calçada e o Papel senta ao seu lado. Ele a abraça e transfere confiança de que vão encontrar um lugar aberto logo, logo e voltarão para casa de carga completa. Mesmo confiante, o Papel fixa o olhar no vazio e sente-se perdido, sem ter a certeza de que vão encontrar um lugar para reabastecer – Não devíamos ter vindo - A Tinta sussurra ao seu pé de ouvido. O Papel seguramente responde - Claro que devíamos ter vindo, vamos achar uma tinturaria, voltar logo para o trabalho e você escreverá em mim as mais lindas e belas palavras em forma de poesia.
Depois de uma pausa para descansar, eles levantam-se e continuam a caminhada pela cidade. Entram e saem de ruas, perguntam a alguns poucos Papeleiros que ainda estavam por lá se ainda havia alguma tinturaria aberta, um Papeleiro muito gentil ensinou o caminho de um Tinteiro aberto 24 horas, não importando se era domingo, feriado ou sábado. Felizes o Papel e a Tinta agradeceram ao Sr. Papeleiro e correram apressados para o novo endereço. Passava rua, casas, Papelarias, lojas de tinturarias e ainda não estavam na metade do caminho.
A Tinta começara a cansar e o Papel amarronzar, ela já pensou em voltar, entretanto, o Papel quis continuar. Ela sempre fora sua fiel companheira e sua única amiga. E juntos deram continuidade à empreitada. Mas pela metade do caminho a Tinta sentiu o sol solidificar suas gotinhas, uma a uma, se isso acontecer ela pode endurecer e ficar muda.
O Papel aflito, se fez de embrulho para sombrear sua amiga líquida, para que assim ela não fique paralítica. Quando nem se dão conta, entram na rua do Tinteiro. Na frente da loja, uma placa anuncia que é uma tinturaria 24 anos, dia e noite, trabalhando com sol e chuva e recebendo encomendas para deixar em casa.
Eles entram na tinturaria e são recebidos por um senhor baixinho, de óculos fundo de garrafa e com o rosto manchado por colorações coloridas. A Tinta ansiosa explica que precisa se abastecer para logo retornar ao trabalho – Pode sentar na cadeira que está bem ao seu lado, querida. Vou te dar uma carga de Hemotinta.  Fala o Sr. Tinteiro à Tinta. O Papel não desgruda dela em nenhum momento, acompanha todos os procedimentos de perto e as injeções de pigmentos.
Passaram a tarde quase toda procurando um lugar onde pudessem recarregar e rapidamente voltar ao trabalho, embora domingo, com os dois não havia essa de pausa para escrita ou entrega de cautelosas cartas. Era tudo feito, preenchido e enviado.
A transfusão de Hemotinta estava quase acabando, enquanto isso o Papel e a Tinta descansavam da longa viagem que fizeram na busca por mais tinta. Eles se olham e riem, brincam entre si, falam alguma bobagem e riem novamente. E o Sr. Tinteiro só observando com seus óculos fundo de garrafa, que mais parecia um telescópio, do que um simples óculos.
A carga acabara de reabastecer a Tinta, esta, sentiu-se revigorada, pois estava pronta, forte e alimentada. Viva novamente. O Papel ficou feliz ao ver sua amiga contente. Os dois agradeceram ao Sr. Tinteiro e foram caminhando até a porta, mas o Papel hesita e para antes de sair definitivamente da loja. Ele talvez tenha sentido um vislumbre.
Como a Tinta não percebeu, continuou caminhando em direção à porta de saída da tinturaria como se o Papel estivesse seguindo-a também, quando ela percebe que seu companheiro não está ao seu lado, volta-se e o vê parado, ainda dentro da loja, olhando-a fixamente. A Tinta confusa não entende e faz sinal para seu amigo acompanhá-la. E ele sinal para a Tinta voltar.
A Tinta não entende, mas volta e vai até o Papel – Agora que você está abastecida, não precisamos voltar ao trabalho para que eu diga algumas coisas que sempre quis te dizer. Ouvindo essas palavras a Tinta demonstra surpresa, pois eles sempre conversaram e ela o pintava diariamente, mas o Papel nunca havia falado com um tom de seriedade tão imponente. Mas ele continuou falando - Tinta, eu tive medo de não conseguirmos achar um Tinteiro que pudesse abastecê-la novamente, senti medo, pois sem suas cores marcando minhas fibras e meu corpo branco, eu não conseguiria levar emoção a quem me abre e me lê, e só me leem por eu estar pintado de você, das tuas cores, dos teus símbolos, das tuas formas, da tua prosa e da tua canção colorida e discreta em suaves melodias. Você, minha amiga Tinta, é quem dá vida a este corpo pálido e morto. Eu apenas queria que soubesse que sem você eu não tenho vida, não sou letra e nem Papel.
A Tinta fica emocionada com a atitude do amigo e dá-lhe um abraço. O Sr. Tinteiro, vendo toda cena de cinema, quando notado pelos dois, finge que estava ajeitando uma porção de titâneo que estava caído na prateleira. A Tinta expressa carinho com as palavras amigáveis de seu companheiro e os dois saem juntinhos da tinturaria de volta ao trabalho, pois o mundo não pode parar e nem a premissa de marcar papel com tinta.



 - Lu Carneiro 

Vá embora não, tome mais uma dose

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